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Pobres sempre tereis convosco”

 

    Pobre, você cheira mal, suas vestes são trapos, não ouso tocá-las, sujam-me as mãos.

      Trago-lhe alimento, são sobras, mesmo... eu já me fartei.

 

Pobre, você me  incomoda! Chega na  hora  da missa, na hora do almoço, quando eu ia descansar...

É por isso que, às  vezes, o  recebo mal,  você  desarruma meu esquema.

    Vasilhas que vão fora eu as guardo – são para você  quando vier, humilhado, pedir: -Dona, estou com fome, me arranje um pedaço de pão, um pouco de arroz  e ... se tiver, feijão.

 

Pobre, até seu toque na campainha eu já distingo e me irrita, é longo, insistente, forte, fere-me o ouvido.


Eu estou muito bem e digo, graças a Deus! Você coitado, é problema  do  governo,  da  sociedade – não meu.


Sou  interesseira, trago-lhe  um  copo  d’água  porque o Evangelho promete o céu a quem o der.


Que diferença de gestos! Dois estendem a mão... Quanto mais  rápido você  se  for, eu poderei  continuar na “minha”...

 

Mas, hoje,  pobre, você  mexeu  comigo, inquietou-me! Senti falta do jornal da vida que você  sempre me traz para ler: notícias  que  a  mídia não publicou: o amor, a justiça, o perdão... Nem sua foto estampou, para eu poder dizer: “este é meu irmão!”


De repente, eu senti, na minha oração, o desejo de que você chegasse.

 

Não viesse pedir, mas receber o  que você,  pobre, tem direito de ter.

 

Hoje eu rezei! Falta-me, agora, a ação.


Por favor, senhor, manda-me pobres, eu os quero servir!


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