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Toda criação está relacionada. Isto é um dom e uma tarefa. Podemos gozar de tudo da vida e da criação mas ao mesmo tempo recebemos ordens para tratar tudo bem e de maneira que todos possam gozar da mesma.
Toda criação quer dizer: o cosmos, a natureza e todas as criaturas. Nada ou ninguém é excluído; é radicalmente incluído. Só assim a realização do Reino é possível. Sempre há violência à criação. Onde está acontecendo isso devemos tomar medidas para que estas injustiças sejam reparadas. Essa tarefa vale para todos, mas especialmente para religiosos porque como liminares vivem na encruzilhada do mundo terrestre e do Reino de Deus.
Você talvez pense: mas afinal isso é novo para nós? Não, isto tudo podemos reencontrar nas nossas congregações. O que é novo, é a visão mais ampla que queremos mostrar. Não defendemos só pessoas, mas a totalidade da criação. Como realizar essa mensagem na prática? Os votos podem ajudar-nos com isso. Indica-nos uma vida como liminares: vivendo os votos podemos inspirar outros. Talvez devemos reformular os nossos votos que até agora professamos. Não eram bons esses votos? Não se trata disso. Não devemos pensar em termos de “bom” ou de “mal”, mas ver os votos no tempo em são aplicados. Não podem perder a força de convicção.
O problema maior é que no passado os votos muitas vezes eram vistos como leis e não como valores. Leis que decretaram aos religiosos que deviam renunciar ao mundo. Só assim podiam ser bons religiosos. Fez-se violência com esses votos a pessoa: ao corpo (voto de castidade) à vontade (voto de obediência) e à adesão emocional (voto de pobreza). Com o novo conceito dos votos expressa se outra coisa: aí se trata da plenitude e da integridade da vida. A não-violência ocupa um lugar central.
A nada e a ninguém se pode causar violência qual seja a forma na qual aconteceria. No nosso tempo estamos diante do desafio de descobrir e proclamar de novo os valores essenciais do Reino de Deus.Devemos estar plenamente no mundo.o mundo e a totalidade da criação precisam de nós. Devemos nos realizar bem que, como religiosos, temos de fazer duas coisas: assumir uma atitude aberta para o mundo e tornar-nos abertos para nós mesmos. Como alguém nos prescreve exatamente como devemos viver é fácil, mas é a vida de uma criança. Devemo-nos tornar adultos: “tenha a coragem de assumir a responsabilidade da sua vida própria e entrar em diálogo com outros”.
O VOTO DE POBREZA
Na maneira de pensar de antigamente o voto de pobreza significou a rejeição de todo o apego à propriedade e bens materiais. A intenção era ficar “pobre de espírito” como Jesus. Isto era visto como virtude. Assim a alma podia ser liberada e o caminho para Deus aberto.
Essa noção deve ver num tempo e contexto determinados. O voto de pobreza causou muita dor, muitas vezes nem por causa dos bens materiais mas, sim, quando se tratava de possessões pessoais com as quais existia um laço emocional.
Uma das conseqüências era que as vezes surgiu uma impotência de gozar de tudo o que torna a vida agradável. Esta espiritualidade era caracterizada por uma atitude negativa e destrutiva em relação à criação, ao corpo e aos bens terrestres. Por esta razão houve dentro da vida religiosa insuficiente atenção para o cuidado responsável da criação e para uma atitude crítica em relação ao uso dos bens materiais. Coisas terrestres eram tentações que impediam uma relação pura com Deus.
Assim, este voto pediu sacrifícios mas que também causou uma certa indolência: tudo estava seguro e o futuro de cada um estava garantido. A vida dentro da Congregação muitas vezes foi melhor do que a vida lá fora e ainda hoje é, muitas vezes. Pois aqui também vale lembrar que uma obrigação imposta é outra coisa, diferente de uma decisão livremente assumida como pessoa adulta para alcançar um determinado ideal.
O voto de pobreza era ainda sempre explicado como uma coisa particular. A riqueza coletiva que ordens e congregações juntaram no decorrer dos tempos nunca foi sujeita às mesmas regras severas.
O VOTO DE APOIO MÚTUO
O nosso tempo pede uma atitude diferente contra a pobreza. Isto tanto a nível de pessoa individual como a nível de toda uma congregação. Somos chamados a cuidar daquilo que nos foi confiado conscientes que fazemos isto em nome de alguém que com toda a confiança nos entregou a administração e o usufruto.
Será que podemos chamar o voto de pobreza daqui em diante o voto de solidariedade mútua ou de apoio mútuo?
Com este nome novo enfatiza-se esforços repetidos, amor dedicado e reciprocidade. A essência desse voto é: viver simples de modo que outros possam simplesmente viver!
Volta a conexão interna das coisas. A questão é tratar com responsabilidade a matéria, a natureza, o cosmos considerando a totalidade.
Podemos usar e gozar tudo, mas não de maneira egoisticamente. Nisto tudo fica incluído o compartilhar. Há um limite ao gozar das muitas coisas boas que a terra e a natureza oferecem. Não podemos infinitamente exaurir e esgotar o nosso globo.
Devemos lidar com isto de uma maneira que tudo se mantenha também para o futuro. Devemos com toda a responsabilidade lidar com a terra e com as pessoas na terra.
Como posso viver como indivíduo de modo que todos tenham o suficiente?
Devemos trabalhar em co-responsabilidade, todos juntos somos responsáveis e não apenas algumas pessoas. Temos de ver a terra e toda a criação como por Deus confiada a nós e com a qual devemos lidar modesta e responsavelmente. Sobretudo na criação, Deus se revela.
Nunca alcançaremos uma relação justa e honesta conosco mesmo ou com outros quando não nos ocupamos primeiro com os problemas de justiça que estão ligadas à nossa morada ecológica, o planeta Terra.
Em relação às comunidades em que vivemos, vale ressaltar que precisaremos realmente, ir juntos, assumindo responsabilidade de tudo o que pertence à comunidade. Como grupo liminar possuímos certos bens e temos a responsabilidade de protegê-los e usá-los de uma maneira cuidadosa e solidária.
Para refletir e discutir:
1. Também em relação ao voto de pobreza podemos ver que antigamente esse voto estava no sinal de:
Desapego.
Regras e leis.
Rejeitar toda uma variedade de coisas materiais.
Agora se nota cada vez mais um movimento na direção de:
Valorizar bens terrestres e materiais.
Tratar esses bens com co-responsabilidade.
Você reconhece essas mudanças também na sua própria vida?
2. “Viver simples, para que outros possam simplesmente viver”. Como você pensa realizar isto para você mesmo, na sua situação própria em sua comunidade?
Com este voto, religiosos sempre se distinguirem dos outros. É o mais antigo dos três votos e dentro das grandes tradições esse voto significa perseverança, uma dedicação desimpedida a Deus e ao desenvolvimento da vida espiritual.
Os conceitos antigos têm as suas raízes na maneira de pensar em dualismo na qual a vida terrestre e a vida depois da morte eram vistas como entidades opostas. Pensaram-se que crescimento espiritual e desenvolvimento sexual não podiam caminhar juntos.
O desenvolvimento sexual não pertencia ao reino de Deus mas a vale pecaminosa de lágrimas.
Religiosos deviam libertar-se do seu corpo e aprender a suprimir os seus sentimentos. Tentações deviam evitar e para isso muitas regras eram elaboradas. Quem era capaz de cumprir exatamente essas regras era uma boa religiosa ou um bom religioso. Devemos ver também que não tudo é negativo.
Não foi só nos conventos que se lidava penosamente com corporeidade e sexualidade. Isso. Isso valia para a sociedade toda. Não eram só as religiosas que conheciam mal o corpo.
Foi a maneira de pensar própria de uma época e não pode ser censurada s´a Igreja por isto.
Também não havia só aspectos negativos no voto de castidade. Esse voto também efetuou disponibilidade nos religiosos.
Muitos religiosos aceitaram a castidade sem pensar muito. Eles eram atraídos mais pelas obras e o carisma da congregação. Religiosas sentiam muitas vezes mais falta de filhos do que de um companheiro.
Para muitos a sexualidade não era negativa mas uma força que acorrenta e desregra.
O voto para relacionamento
Depois do Concílio Vaticano II a nossa visão do voto de castidade já mudou. A nossa sexualidade era vista como um aspecto da nossa personalidade que mexe com sentimentos e emoções. Isto são valores positivos quando expressos para o próximo com grande responsabilidade mas apesar dessas mudanças toda a ara de corporalidade e sexualidade continuou ser uma área difícil e complicada. Quando você durante tanto tempo ouviu dizer que o corpo não tem valor e afeição é perigosa então não é simples esquecer isso.
Isto precisa tempo. Pessoas crescem e mudam continuamente.
Mudando para o voto de relacionamento expressa outra coisa do que voto de castidade ou celibato.
Quando religiosos dizem “sim” à criação de Deus, sentimentos então emoções e corporeidade fazem parte daquilo. Deus mesmo fez-se homem, como então nós podemos nos rejeitar o nosso corpo?
Pelo contrário devemos entrar em relação com o nosso corpo e uns com os outros, também quando isto encontre a sua expressão de uma maneira corporal.
Só a partir da intimidade com Deus podemos ir ao encontro com a criação, e com os outros. Ver o outro com os olhos de Deus. Ver a realidade e o outro com o olhar de Jesus.
A castidade tem a ver com todas nossas relações e assim com toda a nossa existência.A castidade é visto por muitos como uma coisa ruim, negativa, desvalorizada, mutilada. Isso é quando religiosos afetivamente são pobres, sem ter trabalhado bastante a sexualidade e os problemas emocionais. Podemo-nos imaginar as conseqüências nas relações com outros.
Relações íntimas não só se realizam numa relação sexual. Quem escolha uma vida celibatária não deve ser na base de medo ou egoísmo, mas apontar para a importância do encontro pessoal fora da relação sexual: o amoroso encontro pessoal.
Afetividade matura é fonte de força e de engajamento. Afetividade imatura leva a infantilismo e restringe a profundidade das relações humanas, bloqueiam o apostolado.Incertezas e medos levam a dependência emocional. Precisam uma mãe ou pai e não sabem caminhar sozinhos.
A castidade deve ser digna, honesta e desafiante. O medo de ser criticado mostra pouca maturidade afetiva. Numa atitude matura devem caminhar juntas, confiança e prudência.
Viver o voto de castidade ou de relacionamento é o encontro de qualidade com Deus, o outro e o mundo.
Quem faz votos se move no espaço liminar na abertura para Deus, o outro e o mundo.
Sempre parte de Deus e nunca do poder ou do medo.
Mostrar ao mundo que o amor verdadeiro é capaz de mudar e de transformar. Isso é profético.
E isto vai até todas as pessoas que na sua corporeidade e sexualidade são privadas dos seus direitos e violadas. Isso muitíssimas vezes diz respeito a mulheres e crianças que ficam enredadas em comercio de mulheres, prostituição infantil ou negociação de órgãos. Devemos livrar o mundo de repressão sexual.
É tarefa de liminares desligar a sexualidade de violência e divisão e de trazê-la outra vez no âmbito de relacionamento. Relacionamento exige engajamento.
Perguntas:
1. Na visão antiga o voto de castidade era vista assim:
· Libertar-se do corpo
· Repressão de sentimentos
· Evitar as tentações
Quando falamos de voto de relacionamento, devemos:
· Ter atenção sobre o que sentimos;
· ser conscientes que cada pessoa tem um corpo;
· tomar o risco de entrar na relação.
O que você acha disso?
2. O voto de relacionamento incentiva as relações justas e adequadas. Se olharmos para o mundo em nosso redor talvez não seja tão difícil de imaginar-se alguma coisa com isso.
Mas que significam essas palavras pesadas como relações justas e adequadas na nossa convivência cotidiana?
3. Religiosos são aptos, por excelência, de mostrar a sociedade outro tipo de relações. Você acha que nós, neste aspecto, apresentamos um aspecto à sociedade?
Já desde tempos antigos o voto de obediência é muito importante em congregações religiosas. A superiora (ou o superior) assumia o lugar de deus e através dela todas as religiosas deviam obedecer a vontade de Deus. “Obediência cega” é o termo que muitas vezes é usado. Uma boa religiosa ou um bom religioso sabia adaptar-se e conhecia o seu lugar, na vinha com perguntas criticas e não era exigente mesmo quando as tarefas impostas fossem tão incompreensíveis.essa obediência era muito natural em tempos antigos. Cada uma devia conhecer bem o seu lugar. Isto era assim para operários e seu patrão, para mulheres quanto ao marido e para filhos em relação aos pais.
O velho voto de obediência estava baseado em poder. Esse poder era paternalista, quer dizer baseado na autoridade dos homens. Em toda parte da sociedade homens de poder mandavam. Uma concepção tão estrita de obediência é o sinal mais evidente de uma atitude infantil. Cegamente fazer aquilo que foi dito, não tem nada a ver com a propagação do Reino de Deus, bem que não podemos esquecer, que graças a essa atitude, religiosos realizaram muitíssimas obras no passado. Por amor a Deus religiosas(os) iam para onde fossem mandados e fizeram o que seus superiores pediram.
Dentro de um sistema desse, o perigo, de que as pessoas não se sintam pessoalmente responsáveis, é muito grande pois muitas vezes não se sentem comprometidos com aquilo que estão fazendo. Não apela para uma responsabilidade própria. Este estado trouxe muita dor e tristeza.
O voto para colaboração mútua.
No mundo ocidental as relações de autoridade começaram a mover-se no século XX. O mesmo também na vida religiosa.
Vimos que o Concilio Vaticano II teve um papel central nisso. Mas ainda existem hoje em dia muitas ressonâncias que se pode ouvir e notar dessas relações antigas de poder e de autoridade.e importante que religiosos olham para sua parte nessa estrutura.
O nosso tempo pede uma outra aproximação de obediência. Aqui também aponta para a necessidade de considerar a integridade da criação e para a nossa missão de religiosos para anunciar os valores do Reino de Deus.
Obediência não pode consistir mais em impor qualquer coação. Deve tratar-se exatamente de uma atitude atenta e escutadora para as necessidades do nosso tempo. E para a conservação da nossa criação.
Religiosos ou pessoas que vivem no liminar deve estar na vanguarda para salvar o mundo das práticas sufocantes do “divide e impere” dos séculos passados.
Em vez de uma estrutura hierárquica queremos uma rede de trabalho com alianças de espírito de equipe como força unificadora, isso consiste em co-responsabilidade. Poder tomar parte na discussão não é a mesma coisa que poder fazer sem mais nem menos aquilo que desejar. Aqui também vale a comparação com a fase infantil: um jovem quer na fase de adolescência numa vez e totalmente fazer a sua vontade própria, mas ainda não é uma atitude adulta.
Todo processo é um exemplo de colaborar, de procurar maneiras de procurar juntamente a responsabilidade. Aí se expressa uma atitude espiritual.
A diversidade de ver e de fazer é necessária para a comunidade. Ninguém é dono da verdade. Juntas procuramos a verdade num processo constante de desenvolvimento. Obediência nesta visão é compreendida como uma atitude de fé como uma atitude correspondente a um apelo.
O objetivo é a conservação da criação e das relações justas. Aqui trata-se também de inclusividade radical porque toda a criação e toda a vida são envolvidas. O voto nos leva para fora do círculo próprio e seguro para situações onde não há relações justas e onde pessoas são privadas dos seus direitos. Respondemos a isso desde o apelo que nos foi feito, juntamente com outros.
Isto é uma missão liminar. Fazemos isto em nome da Basiléia, do Reino de Deus.
Colaboração significa fundamentalmente uma disposição para entrar em contato um com outro e trabalhar juntos em harmonia, enquanto a diversidade de dons e talentos que há no grupo de participantes, é alargada.
O voto de colaboração não só tem a ver com uma nova maneira exercer autoridade baseada mais em igualdade, mas está em primeiro lugar relacionada com uma conversão de coração e de espírito que nos habilita a olhar para a vida de uma outra maneira.
Para refletir e discutir:
Antigamente o voto de obediência era visto assim:
· Obediência cega
· Autoridade
No voto de colaboração mútua a preocupação central é a Responsabilidade Partilhada.
1. Dê alguns exemplos da sua vida onde realmente houve responsabilidade partilhada.
2. Compare nas Constituições da sua Congregação se o texto corresponde com esta nova visão.
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